[Concluindo, posso dizer...]

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Rio longo

Tempo pra quê?
Se tuas palavras gritam
Por todos os teus lados
Tentando serem lidas
À vista de homens cegos?

Morrem no vazio
Esperando a acolhida de uma mão
Sobem nos teus ombros
E te anunciam, alegres, a todos que passam.
Ninguém as ouve

Noite e dia te perturbam
Pulam, riem
Se arrastam cabisbaixas
Gritam com alta voz em lamentos dramáticos.

Melhor não arriscar calar
Guardado em caixas o que se precisa ler

Te seduziram e te puxaram os cabelos por dias
Soltas, fugiram feito doidas,
Desvairadas, de olhos arregalados
Sedentas a cumprir o seu propósito

Foi em vão o teu assentar
Tentando juntar pedaços
Tentando prender as que soltaste
Em vão, depois de soltas fogem pra nunca mais.
Melhor não abrir

Porém choraste e disseste: 
Melhor não arriscar calar
Melhor assim
Meus castelos agora os tenho
Minhas ruínas ao seu redor

Se abrir o rio é longo
Se fechar o rio é fogo
E eis o dilema
Entre palavrear e silenciar

A marcha

É breve estar aqui
É longo se não encontrar
O caminho
Se não deixar uns porquês 
Que cativam

Se a dor chegar 
É só mirar o sol
No fim dele o teu andar termina

À noite, a noite pega a tua dor
E o teu sono vira sonho
De manhã tem uma nova manhã pra caminhar
De novo

Pata cega

Ando perdido e cego no meio do teu seio. Desde o primeiro momento nunca soube o que seria vagar às escuras num imenso desconhecido. Te buscando. 

Do outro lado ouço tua voz. Risos e gritos dizendo o quanto estou longe ou perto.

Faminto, indago quando será o próximo momento. Tento entender o que tanto tem ali naquele teu recanto,
que faz de mim um perseguidor, incessante.

E se estaria você ao longe, forjando o nosso amor à base de fogo, rejeição e porções contadas da sua presença.

Mato a cabeça e tento adivinhar o dia em que você vem, 
tira a venda dos meus olhos e, finalmente, diz, 
sorrindo, que a brincadeira acabou.

E que finalmente eu te achei.





As horas finais de um inverno


Disse que deveria de alguma forma ir pra um lugar bem gelado. 

E lá fui eu. Fiz o meu caminho no meio da neve. Caminhei alguns dias e, distante já alguns lugares, me assentei no meio do nada. Tirei o que tinha de roupa e fiquei ali sentindo aquele vento agonizante, esperando a noite chegar. Quando ela chegou, amontoei uns gravetos e fiquei observando por todo o tempo a cena de uma pilha de madeiras sem fogo nenhum, nem calor pra dar.

A expectativa sempre presente mas nunca satisfeita. A chance que tinha de acabar com meu martírio sem o querer. Eu me submeti.

Eu disse que deveria ir pra um lugar bem gelado.

Lá eu faria a minha casa no meio do nada.
No amplo chão gelado me sentaria só, esperando a noite chegar. Quando ela chegasse amontoaria uns gravetos e ficaria olhando, sob vento forte, até ranger os dentes de tanto frio. 

Fui e corri para lugares frios; sob o forte vento cerrei os dentes. Talvez o frio me force a buscar alguém que eu nem sei que necessito. Talvez o frio me force a querer o calor que sempre me ofereceram e eu costumo rejeitar.