[Concluindo, posso dizer...]

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desapego e apego (e desapego)

e por não ter dado valor ao tempo, o tempo não mais o importunou

por muito tempo, o tempo o deixou a sós consigo mesmo, e não estendeu sobre ele os seus números, que são grilhões, limitadores de tudo, inclusive sua liberdade; deixou-o a sós para viver intermináveis minutos e segundos que não se sabe se foram milênios ou apenas simples segundos

em meio a pensamentos e sabores, caminhou sem rumo pelas ruas durante aquela noite; ruas que mais pareciam intermináveis ruas, e noite que parecia não declinar; onde teve idéias e pôde viajar por muitas letras e lugares, relembrar rostos que um dia viu, e isso sem se dar conta de que somente tinham se passado alguns poucos minutos

isso foi depois de ele ter acordado no meio da noite, no meio da rua. tinha se deitado no meio de uma das ruas da cidade onde vivia. era andarilho e caminhava a esmo. gostava mesmo era do gosto da surpresa e da ausência do peso da previsibilidade e não quis olhar para o relógio, pra não viver o martírio de caminhar passos rápidos

foi assim que vivenciou o despreendimento do tempo, e pôde se fazer eterno

quanto às outras formas de desapego, aprendeu logo que a viu. foi assim: a cidade estava vazia e meio escura, até que ela acorda de algum lugar que não se sabe ainda e caminha. sabe-se lá no meio de qual ano, ou depois de quantas eras ou milênios foi que os dois se toparam. e quando se viram a cidade se fez luz; e depois desapareceu. e tudo se fez vazio e nada. tudo se fez inexistência; exceto por ele, e exceto por ela

aprenderam a arte do apego depois de terem vivido a arte do que é ser sozinho, o desespero que é ouvir uma única voz durante segundos que parecem milênios. viveram a ausência e o nada até que se acostumaram e já não podia mais haver dor na carência. se acostumaram, atordoados, à solidão. e aprenderam a amá-la. e a solidão os odiou, porque amar a solidão é o mesmo que desprezá-la, porque a solidão detesta companhia e amor

e por haverem desprezado a solidão, a própria solidão os desprezou e os expulsou da sua presença. e a solidão os entregou um a cada um e o outro a seu outro. e a solidão se despediu e os entregou nas mãos da companhia

[Para ler ouvindo: Sidney Bechet - Si tu vois ma mère]

Finais

Acabou

[Eu sento e penso: é aqui onde paro de escrever a nossa história
Aí eu pego aqueles papéis cheios de narrativas nossas e os jogo no lixo
Mas depois de um tempo os junto, desamasso, e volto a escrever
E os jogo no lixo outra vez, numa rotina que não quer ter fim]

Não é o fim, é apenas o começo
O recomeço; onde tudo que se viveu é revivido
Esse misto de desespero, alívio, tristeza e completude
Onde se busca o melhor culpado

Quando tudo termina não é o fim
É o começo de uma longa jornada
De pedidos de recomeço, de negações, de aceites
Esse sobe e desce que você sabe que deve acabar, mas não acaba

Onde você se passa por homem sem palavra, indeciso e moleque
Onde você morde a língua, porque disse que não ia mais ligar, e ligou
Onde você se vê traído pela sua própria vontade

De manhã você odeia, à tardinha sente saudade
À noite você tem memória curta, ao meio-dia é implacável

Depois de alguns finais, você descobre que o que vale mesmo são suas atitudes
Você abandona as palavras porque sabe que elas já têm pouca utilidade
E se entrega ao teste do silêncio e da distância
E depois de passar por esse teste
Aí sim você chega ao fim 

Romances terminam da mesma forma que começam:
Ninguém sabe ao certo quando

Não existe final, mas finais
As coisas não acabam
Elas vão acabando, acabando, e acabando
E quando realmente acabam você nem se dá conta