[Concluindo, posso dizer...]

[PÁGINA INICIAL]



Quando não se exige amor

A chuva caía meio fina. O clima era frio e ainda era de tarde quando te vi naquele parque. Eu te sorri de cá e você de lá. O que nos uniu foi quando te estendi a mão e você estendeu a sua. Então passamos a caminhar juntos. Duas individualidades, duas decisões, uma decisão comum. Sem obrigações, apenas o desejo de ser feliz.

Vem até mim, querida, vem. Permito que as minhas mãos cumpram seu papel de mãos: elas abrem e fecham quando querem. Não farei delas algemas, nem de meus braços cordas. Vamos andar pela mesma estrada e dormir sob o mesmo pôr-do-sol.

Vem até mim, querida, vem.

Amor é compromisso individual, não é dívida. Nunca pensarei que já dei o suficiente, pra não correr o risco de achar que tenho o direito de exigir o que quiser. Não trocarei a gentileza pelo arrastar; o "vamos?" pelo "vamos!".

Vamos ser felizes?

[Ambos se encontraram por vontade própria. Ele se chamava amor e ela liberdade.
Um belo casal]

Noite de chuva

Costumava chover sempre. Chovia muito, sem cessar, em todas as horas do dia. Numa espécie de dilúvio sem fim. De onde viria tanta água? A vida [na cidade] não era há muito tempo a mesma.

O cenário era, por assim dizer, melancólico e escuro, ao ponto de não haver mais divisão entre dias e noites. Todos os dias eram noites, noites escuras, de chuvas torrenciais, de relâmpagos e trovões, de amedrontar qualquer um que pusesse os pés do lado de fora.

Ruas vazias, bares vazios. Cidade fantasma.

Ele via a cidade pelas janelas de onde morava. Uma cidade bela. 

- Ninguém nas ruas (como sempre)

Já estava acostumado à essa espécie de "noite eterna" e ao silêncio. Esse silêncio que lhe trazia uma tristeza disfarçada de paz. Odiava a chuva porque ela o privava de muitas coisas, de pessoas, de situações, enfim. Odiava essa prisão molhada.

Por um instante, um frio lhe correu pelo corpo, pelos simples fato de ter pensado em aventurar-se nessa selva de águas. Mas o frio da sensação foi logo substituído pelo frio da água que caía pesadamente sobre seus ombros. Em poucos segundos já estava encharcado, andando pelas ruas de pedras, pedras que mais pareciam ouro, pelo brilhar das luzes amarelas dos postes. 

Estava feliz, como um menino, tomando banho de chuva, soltando gritos sem sentido, correndo, caindo nas gargalhadas ao pisar nas poças. E aos poucos a chuva foi parando, e o motivo de tanta felicidade foi se esvaecendo. Estava ficando triste. A diversão estava acabando.

Então as nuvens se dispersaram. O sol se mostrou e fez-se um belo dia. Muitos moradores já saíam de suas casas. E ele voltou para a sua. Fechou portas e janelas, reconstruiu o cenário melancólico e chuvoso como o de então. 

A chuva tinha acabado. Tinha durado tantos anos e só agora ele tinha percebido o quanto ela era mágica.

Deitou-se e dormiu. Molhado. Desolado.