[Concluindo, posso dizer...]

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Relato do indigente

Quatrocentos e tantos casos de pessoas que andaram cogitando se deveriam ou não mudar seus velhos hábitos. O vizinho mala do andar de cima que decidiu pegar o ônibus que passa mais tarde pra poder dar uma esticada a mais na cama; afinal são dias que pedem mais cama e mais sossego. 

As pessoas agora andam quase sempre correndo pelas ruas, com medo. Todo mundo tem medo da chuva. Todo mundo tem medo de alguma coisa.

Nesse percurso diário de quem andava passos acelerados e desapercebidos; e agora nesse último percurso de passos de desespero ele estende as suas mãos e o que tem? Nessas suas mãos o que você tem? Morte! Nessas mãos cheias de vermelho o que você vê? Vida escorrendo.

Iria voltar à sua vidinha de ser humano normal e lesado e distraído. Voltar a assistir os programas de tv com aquela cara de quem nunca passou nenhuma desgraça na vida. O veriam lendo algum gibi na banca de revista sem pagar, seria julgado por algum transeunte metido a observador que quando te vê diz que ali está um cara com sua cara de muita normalidade. E a gente tenta fingir que a normalidade está no seu auge ou que finalmente estamos voltando à nossa velha vidinha mais ou menos.

Morte. Nos seus braços ela tem, agora, um ser inanimado. No chão, o sangue escorre. Com ele escorrem sonhos de estarem juntos, seus planos e suas memórias. E tudo se vai pela sarjeta. Com sangue e com água salgada.

E a gente nessa de se deveria ou não...

Rio longo

Tempo pra quê?
Se tuas palavras gritam
Por todos os teus lados
Tentando serem lidas
À vista de homens cegos?

Morrem no vazio
Esperando a acolhida de uma mão
Sobem nos teus ombros
E te anunciam, alegres, a todos que passam.
Ninguém as ouve

Noite e dia te perturbam
Pulam, riem
Se arrastam cabisbaixas
Gritam com alta voz em lamentos dramáticos.

Melhor não arriscar calar
Guardado em caixas o que se precisa ler

Te seduziram e te puxaram os cabelos por dias
Soltas, fugiram feito doidas,
Desvairadas, de olhos arregalados
Sedentas a cumprir o seu propósito

Foi em vão o teu assentar
Tentando juntar pedaços
Tentando prender as que soltaste
Em vão, depois de soltas fogem pra nunca mais.
Melhor não abrir

Porém choraste e disseste: 
Melhor não arriscar calar
Melhor assim
Meus castelos agora os tenho
Minhas ruínas ao seu redor

Se abrir o rio é longo
Se fechar o rio é fogo
E eis o dilema
Entre palavrear e silenciar

A marcha

É breve estar aqui
É longo se não encontrar
O caminho
Se não deixar uns porquês 
Que cativam

Se a dor chegar 
É só mirar o sol
No fim dele o teu andar termina

À noite, a noite pega a tua dor
E o teu sono vira sonho
De manhã tem uma nova manhã pra caminhar
De novo

Pata cega

Ando perdido e cego no meio do teu seio. Desde o primeiro momento nunca soube o que seria vagar às escuras num imenso desconhecido. Te buscando. 

Do outro lado ouço tua voz. Risos e gritos dizendo o quanto estou longe ou perto.

Faminto, indago quando será o próximo momento. Tento entender o que tanto tem ali naquele teu recanto,
que faz de mim um perseguidor, incessante.

E se estaria você ao longe, forjando o nosso amor à base de fogo, rejeição e porções contadas da sua presença.

Mato a cabeça e tento adivinhar o dia em que você vem, 
tira a venda dos meus olhos e, finalmente, diz, 
sorrindo, que a brincadeira acabou.

E que finalmente eu te achei.





As horas finais de um inverno


Disse que deveria de alguma forma ir pra um lugar bem gelado. 

E lá fui eu. Fiz o meu caminho no meio da neve. Caminhei alguns dias e, distante já alguns lugares, me assentei no meio do nada. Tirei o que tinha de roupa e fiquei ali sentindo aquele vento agonizante, esperando a noite chegar. Quando ela chegou, amontoei uns gravetos e fiquei observando por todo o tempo a cena de uma pilha de madeiras sem fogo nenhum, nem calor pra dar.

A expectativa sempre presente mas nunca satisfeita. A chance que tinha de acabar com meu martírio sem o querer. Eu me submeti.

Eu disse que deveria ir pra um lugar bem gelado.

Lá eu faria a minha casa no meio do nada.
No amplo chão gelado me sentaria só, esperando a noite chegar. Quando ela chegasse amontoaria uns gravetos e ficaria olhando, sob vento forte, até ranger os dentes de tanto frio. 

Fui e corri para lugares frios; sob o forte vento cerrei os dentes. Talvez o frio me force a buscar alguém que eu nem sei que necessito. Talvez o frio me force a querer o calor que sempre me ofereceram e eu costumo rejeitar.

desapego e apego (e desapego)

e por não ter dado valor ao tempo, o tempo não mais o importunou

por muito tempo, o tempo o deixou a sós consigo mesmo, e não estendeu sobre ele os seus números, que são grilhões, limitadores de tudo, inclusive sua liberdade; deixou-o a sós para viver intermináveis minutos e segundos que não se sabe se foram milênios ou apenas simples segundos

em meio a pensamentos e sabores, caminhou sem rumo pelas ruas durante aquela noite; ruas que mais pareciam intermináveis ruas, e noite que parecia não declinar; onde teve idéias e pôde viajar por muitas letras e lugares, relembrar rostos que um dia viu, e isso sem se dar conta de que somente tinham se passado alguns poucos minutos

isso foi depois de ele ter acordado no meio da noite, no meio da rua. tinha se deitado no meio de uma das ruas da cidade onde vivia. era andarilho e caminhava a esmo. gostava mesmo era do gosto da surpresa e da ausência do peso da previsibilidade e não quis olhar para o relógio, pra não viver o martírio de caminhar passos rápidos

foi assim que vivenciou o despreendimento do tempo, e pôde se fazer eterno

quanto às outras formas de desapego, aprendeu logo que a viu. foi assim: a cidade estava vazia e meio escura, até que ela acorda de algum lugar que não se sabe ainda e caminha. sabe-se lá no meio de qual ano, ou depois de quantas eras ou milênios foi que os dois se toparam. e quando se viram a cidade se fez luz; e depois desapareceu. e tudo se fez vazio e nada. tudo se fez inexistência; exceto por ele, e exceto por ela

aprenderam a arte do apego depois de terem vivido a arte do que é ser sozinho, o desespero que é ouvir uma única voz durante segundos que parecem milênios. viveram a ausência e o nada até que se acostumaram e já não podia mais haver dor na carência. se acostumaram, atordoados, à solidão. e aprenderam a amá-la. e a solidão os odiou, porque amar a solidão é o mesmo que desprezá-la, porque a solidão detesta companhia e amor

e por haverem desprezado a solidão, a própria solidão os desprezou e os expulsou da sua presença. e a solidão os entregou um a cada um e o outro a seu outro. e a solidão se despediu e os entregou nas mãos da companhia

[Para ler ouvindo: Sidney Bechet - Si tu vois ma mère]

Finais

Acabou

[Eu sento e penso: é aqui onde paro de escrever a nossa história
Aí eu pego aqueles papéis cheios de narrativas nossas e os jogo no lixo
Mas depois de um tempo os junto, desamasso, e volto a escrever
E os jogo no lixo outra vez, numa rotina que não quer ter fim]

Não é o fim, é apenas o começo
O recomeço; onde tudo que se viveu é revivido
Esse misto de desespero, alívio, tristeza e completude
Onde se busca o melhor culpado

Quando tudo termina não é o fim
É o começo de uma longa jornada
De pedidos de recomeço, de negações, de aceites
Esse sobe e desce que você sabe que deve acabar, mas não acaba

Onde você se passa por homem sem palavra, indeciso e moleque
Onde você morde a língua, porque disse que não ia mais ligar, e ligou
Onde você se vê traído pela sua própria vontade

De manhã você odeia, à tardinha sente saudade
À noite você tem memória curta, ao meio-dia é implacável

Depois de alguns finais, você descobre que o que vale mesmo são suas atitudes
Você abandona as palavras porque sabe que elas já têm pouca utilidade
E se entrega ao teste do silêncio e da distância
E depois de passar por esse teste
Aí sim você chega ao fim 

Romances terminam da mesma forma que começam:
Ninguém sabe ao certo quando

Não existe final, mas finais
As coisas não acabam
Elas vão acabando, acabando, e acabando
E quando realmente acabam você nem se dá conta

Quando não se exige amor

A chuva caía meio fina. O clima era frio e ainda era de tarde quando te vi naquele parque. Eu te sorri de cá e você de lá. O que nos uniu foi quando te estendi a mão e você estendeu a sua. Então passamos a caminhar juntos. Duas individualidades, duas decisões, uma decisão comum. Sem obrigações, apenas o desejo de ser feliz.

Vem até mim, querida, vem. Permito que as minhas mãos cumpram seu papel de mãos: elas abrem e fecham quando querem. Não farei delas algemas, nem de meus braços cordas. Vamos andar pela mesma estrada e dormir sob o mesmo pôr-do-sol.

Vem até mim, querida, vem.

Amor é compromisso individual, não é dívida. Nunca pensarei que já dei o suficiente, pra não correr o risco de achar que tenho o direito de exigir o que quiser. Não trocarei a gentileza pelo arrastar; o "vamos?" pelo "vamos!".

Vamos ser felizes?

[Ambos se encontraram por vontade própria. Ele se chamava amor e ela liberdade.
Um belo casal]

Noite de chuva

Costumava chover sempre. Chovia muito, sem cessar, em todas as horas do dia. Numa espécie de dilúvio sem fim. De onde viria tanta água? A vida [na cidade] não era há muito tempo a mesma.

O cenário era, por assim dizer, melancólico e escuro, ao ponto de não haver mais divisão entre dias e noites. Todos os dias eram noites, noites escuras, de chuvas torrenciais, de relâmpagos e trovões, de amedrontar qualquer um que pusesse os pés do lado de fora.

Ruas vazias, bares vazios. Cidade fantasma.

Ele via a cidade pelas janelas de onde morava. Uma cidade bela. 

- Ninguém nas ruas (como sempre)

Já estava acostumado à essa espécie de "noite eterna" e ao silêncio. Esse silêncio que lhe trazia uma tristeza disfarçada de paz. Odiava a chuva porque ela o privava de muitas coisas, de pessoas, de situações, enfim. Odiava essa prisão molhada.

Por um instante, um frio lhe correu pelo corpo, pelos simples fato de ter pensado em aventurar-se nessa selva de águas. Mas o frio da sensação foi logo substituído pelo frio da água que caía pesadamente sobre seus ombros. Em poucos segundos já estava encharcado, andando pelas ruas de pedras, pedras que mais pareciam ouro, pelo brilhar das luzes amarelas dos postes. 

Estava feliz, como um menino, tomando banho de chuva, soltando gritos sem sentido, correndo, caindo nas gargalhadas ao pisar nas poças. E aos poucos a chuva foi parando, e o motivo de tanta felicidade foi se esvaecendo. Estava ficando triste. A diversão estava acabando.

Então as nuvens se dispersaram. O sol se mostrou e fez-se um belo dia. Muitos moradores já saíam de suas casas. E ele voltou para a sua. Fechou portas e janelas, reconstruiu o cenário melancólico e chuvoso como o de então. 

A chuva tinha acabado. Tinha durado tantos anos e só agora ele tinha percebido o quanto ela era mágica.

Deitou-se e dormiu. Molhado. Desolado.